Por Carol Garcia
Quando vi pela primeira vez os objetos criados pela marca Argentina Usos lembrei de uma conversa que tive com Ferrucio Ferragamo, CEO da marca que leva seu sobrenome. O super distinto signore Ferragamo, que àquela época abria sua primeira loja em Mumbai ao mesmo tempo em que visitava São Paulo, ressentia-se do pouco tempo que tinha para entender a alma desta e das outras cidades fascinantes pelas quais passava com tanta brevidade. Falamos dos cheiros, dos sabores, das dobras das esquinas. E concluímos que a cordialidade polida dos ambientes de marca precisa dessa vitalidade para se renovar.
Penso que o signore Ferragamo ficaria contente em saber que muitos designers sul-americanos têm refletido a esse respeito. E não só na moda, que neste evento volta-se à sustentabilidade, como especialmente na movelaria e na cosmética. Um bom exemplo são os arquitetos Arturo Tezanos Pinto e Carlos Gronda, da marca argentina Usos. Para ambos, de nada adianta meramente reproduzir tendências de modo postiço. Usos é resultado de pesquisa permanente sobre o modo de ser dos povos autóctones da América e dos recursos naturais desta terra. Incorporar tais potencialidades ao design de produtos é seu desafio.
Não há binarismo entre regional e internacional. A marca mescla insumos e saberes da província de Jujuy à melhor tecnologia disponível para conceber móveis coloridos e alegres, inspirados pelo Carnaval latino ou pelo trabalho nas salinas da região. Dentro do mesmo princípio, a designer gráfica argentina Carina Cavazza criou La Pasionaria , que define como "saboneteria gourmet". La Pasionaria tem coleções de aromas extraídos de lugares tão díspares quanto a dispensa da vovó e os bosques da Patagônia.
Assim como Usos, La Pasionaria vende mesmo é honestidade. Bastou Carina mergulhar nas bibliotecas de Rosário, onde vive, e jogar com os sentidos até confundi-los. Descobriu estudos de 1942, feitos por uma comissão especial de botânicos, que sugeriam flores de três árvores para serem adotadas como nacionais. Eram maracujá, jacarandá e cedro. Resgatou esses aromas pátrios e muitos mais: a nostalgia do tango, a delícia do doce de leite, o conforto da erva mate... Num mundo onde predomina o sabor artificial de baunilha, a existência de marcas que criam relações verdadeiras com seu entorno é no mínimo reconfortante.